Desafios para o Marketing em Tempos de Disrupção – Parte 1

Uma homenagem a Rafael Sampaio, um grande amigo, consultor, pensador do marketing e da publicidade – Parte 1Por Luciano Vignoli – Diretor-Presidente da e21

Estive pessoalmente com Rafael Sampaio em fevereiro desse ano, em São Paulo. Ele seguia carregando seu jeitão cético, irônico, ligeiramente pessimista, mas acima de tudo altamente lúcido pelo desafio de transição profunda que estamos passando no negócio publicitário.

Naquele encontro, muito estimulado e ainda com muitos projetos na cabeça, ele me ofereceu um arcabouço de conteúdo profundamente atualizado por ele para ser levado às empresas sob a forma de um workshop para as áreas de marketing.

Tentei vender o evento para alguns clientes. Tudo ainda estava em avaliação quando quando veio a pandemia e… O Rafael morreu na sexta-feira passada, dia 12. O CENP, numa newsletter especial, se referiu a ele assim:

“O mercado publicitário brasileiro perdeu na madrugada de hoje Rafael Sampaio, grande amigo e apoiador das causas da publicidade e do marketing. Tinha 67 anos e morreu na casa dele, em São Paulo.Foi um defensor intransigente do modelo brasileiro de publicidade e importante interlocutor na construção da autorregulação ético-comercial, desde a ideia primordial que levou à fundação do CENP, 21 anos atrás. Jornalista e publicitário, Rafael somava um invejável conhecimento teórico e prático sobre marketing e publicidade.Em quase 50 anos de carreira, ele foi decisivo para a consolidação de veículos especializados, fundou e editou a About e atuou em entidades do mercado publicitário, como ABA, onde militou por quase trinta anos.Sua vivência internacional o tornou um dos embaixadores da publicidade brasileira. Integrou conselhos e entidades e frequentou congressos, feiras e festivais internacionais, tendo se tornado referência para a atividade.Escreveu vários livros – Propaganda de A a Z, Marcas de A a Z e Planejamento de Marketing – Conhecer, Decidir e Agir, por exemplo – e milhares de textos jornalísticos sobre virtualmente todos os aspectos da indústria da comunicação.Sua capacidade de trabalho era e continuará sendo lendária.Rafael esteve bastante próximo do CENP nos últimos anos, sendo curador do Conteúdos CENP, uma importante contribuição para a difusão de informações de vanguarda para todo o mercado.Era um extraordinário conselheiro pela bagagem de informações, conhecimento e sabedoria, principalmente na hora de conciliar interesses. Foi um profissional e dirigente exemplar.”

De minha parte, só tenho a complementar que ele foi um cara importante na trajetória e21. O Rafael editou um número especial da ABOUT quando a e21 completou 30 anos. Guardo exemplares como tesouros que mostrarei a meus netos. As sessões de consultoria anteciparam os movimentos de mudança (total e absoluta) que nosso modelo de negócios sofreria.

Foram vários almoços em SP, principalmente no Barbacoa, no Morumbi, com assuntos de muita atualidade, onde conversávamos por quase 3 horas a cada vez, nas quais nunca o vi recusar uma única oferta gastronômica de garçons ágeis e panelinhas quentes de acompanhamentos excepcionais.

Guardo os encontros com o Rafael como momentos de luz. No último, ele me falava sobre um workshop que estava oferecendo às áreas de marketing dos clientes. Ele dizia que era uma compilação de “Desafios para o marketing em tempos de disrupção”:

“Luciano: Tem que separar o que é obrigação e o que é ilusão. Tem muita pirotecnia, muita bobagem sendo dita. No fundo, pensa comigo, as coisas são e serão como sempre foram. Lembra do David Ogilvy? We sell or else!” – exclamava ele.”

E completava: “Luciano: Pensa que nunca foi tão fácil e livre empreender e fazer o marketing necessário, pois os instrumentos e recursos (até financeiros, em certa medida) são imensos. Mas nunca foi tão complexo e complicado estruturar as soluções mais convenientes, eficientes e eficazes. Que tempos, não?”

Após o encontro, ele me enviou todos os arquivos do workshop, toda a apresentação, tudo. Por ocasião de sua morte, mandei mensagem pra Gisele Centenaro, sua esposa e perguntei se poderia escrever alguns textos em homenagem a ele, resumindo a ideia central do conteúdo do workshop, que não merece morrer com ele. Ou comigo. Ela autorizou na hora.

Vale acompanhar nas próximas semanas, por aqui, o raciocínio agudo desse estudioso do marketing e da comunicação, que vou fazer um esforço acima da minha capacidade para reproduzir.

Descansa em paz, Rafael. Não foi em vão tua passagem por aqui.