As Pessoas Mudaram | Capítulo 4: Ecoansiedade
Até pouco tempo atrás, falar sobre o clima era apenas o jeito mais comum de preencher um silêncio constrangedor no elevador. Hoje, acredite, é motivo pelo qual muitas pessoas perdem o sono...
No mundo da comunicação, vivemos buscando padrões e tendências, mas muitas vezes esquecemos de olhar pela janela: A temperatura subiu, os extremos climáticos tornaram-se rotina e, com eles, nasceu uma nova angústia coletiva.
Estamos diante de um fenômeno catalogado, real e paralisante que afeta muita, muita gente mesmo: a ecoansiedade.
De acordo com o recém-lançado Panorama da Saúde Mental 2025, 42% dos brasileiros já relatam abalos na saúde mental devido às mudanças climáticas.
O impacto é tão denso e tangível que um terço da nossa população afirma ter dificuldades diárias para dormir, trabalhar ou se relacionar, movidos puramente pela preocupação com a crise ambiental.
A juventude e o dilema de existir
Se a angústia atinge a todos, nas gerações mais novas ela se transforma em um grande obstáculo. O maior estudo global já realizado com jovens sobre o tema (conduzido pela Universidade de Bath e publicado na The Lancet Planetary Health) ouviu 10 mil pessoas de 16 a 25 anos em vários países, incluindo o Brasil.
Os resultados?
- 60% desses jovens se sentem muito preocupados com o clima;
- Para quase metade deles (45%), essa ansiedade já afeta diretamente o funcionamento diário básico, como comer, dormir e estudar.
Mas o dado que talvez mais redefina o que entendemos por planejamento de vida e, consequentemente, por projeções de mercado a longo prazo, é este:
- 39% dos jovens no mundo hesitam em ter filhos por conta da crise climática.
Para a Geração Z e os Millennials, a maternidade e a paternidade tornaram-se um dilema ético. O medo do mundo que essas futuras crianças herdarão está freando a própria continuidade das gerações.
E o seu negócio com isso? A régua subiu.
Quando a visão de futuro de um indivíduo é pautada pela incerteza e pela apreensão, o papel de tudo que o cerca também muda. Como bem aponta a revista de tendências Consumidor Moderno, ser uma marca que “apenas recicla” não é mais o suficiente.
O novo consumidor busca narrativas, valores e as ações reais da empresa.
Nas prateleiras e nos carrinhos virtuais, esse público busca um alívio para a sua própria ansiedade.
Eles escolhem marcas que atuem ativamente para mitigar a crise.
É quase como se o consumo fosse um ato de ativismo.
É aqui que a reflexão bate à porta das empresa.
Afinal, torna-se vazio e inútil continuar operando com discursos sustentáveis rasos e paliativos (aquele que chamamos de greenwashing) tornando esse ato um risco financeiro fatal diante de um público que teme pelo amanhã.
Para as marcas, um recado:
Propósito verdadeiro é a chave. E propósito acolhedor, viu?
A ideia não é apavorar o público. O consumidor já está assustado. Ele não precisa de mais alarmismo; ele precisa de marcas que o convidem a fazer parte da solução prática.
Como temos alertado ao longo de todo este projeto de curadoria: As pessoas mudaram. As escolhas, também. E isso inclui a sua marca.
Se o seu cliente perde o sono pensando no futuro do planeta, a sua marca deveria usar o tempo acordada para construir soluções reais.
Afinal, conectar-se com quem teme pelo futuro exige um compromisso inegociável com a vida.